Henrique IV, o monarca que pôs fim às guerras religiosas na França com o Édito de Nantes e prometeu um frango na panela de cada família francesa aos domingos, ficou famoso por muito mais do que sua habilidade política. Entre os relatos que seus contemporâneos deixaram sobre ele, o odor corporal ocupa um capítulo próprio. Suas amantes reclamavam, seus cortesãos toleravam e o rei simplesmente não se importava. Para entender por que um dos soberanos mais populares da história francesa cheirava, segundo as fontes da época, como um bode, é preciso voltar à infância nos campos do Béarn e ao que a medicina do século XVI entendia por higiene.

O que a infância no Béarn tinha a ver com os hábitos do rei?
Henrique IV nasceu em 1553 no castelo de Pau, capital da soberania de Béarn, no sudoeste da França, próximo à fronteira com a Espanha. Por determinação de seu avô materno, passou a infância não entre cortesãos e salões perfumados, mas entre camponeses e pastores das montanhas dos Pireneus, correndo descalço, caçando, comendo como o povo e falando o dialeto local. Essa criação deliberadamente rústica foi uma escolha política: o avô queria que o neto fosse formado “à maneira béarnaise”, com os pés na terra e o corpo endurecido pelo contato com a natureza. O resultado foi um homem que chegou ao trono sem nenhuma aversão ao suor, à lama ou ao odor da caça.
A lenda de seu nascimento já anunciava algo dessa rusticidade. Conta a tradição que, ao nascer, seu avô lhe esfregou os lábios com um dente de alho e o fez cheirar um cálice de vinho de Jurançon, prática comum no Béarn para fortalecer os recém-nascidos. O alho, que em uma corte elegante seria considerado vulgar e mal-cheiroso, foi o primeiro contato de Henrique IV com o mundo. E permaneceu parte essencial de sua dieta ao longo de toda a vida, contribuindo de forma bastante concreta para o odor que se tornaria sua marca registrada.
Por que a medicina do século XVI justificava não tomar banho?
A recusa de Henrique IV em se banhar não era excentricidade pessoal: era comportamento perfeitamente alinhado com o pensamento médico dominante na Europa dos séculos XVI e XVII. Os médicos da época acreditavam que a água quente abria os poros da pele, permitindo a entrada de miasmas, vapores pestilentes que causavam doenças. O banho de imersão era visto como um risco real à saúde, associado às epidemias que haviam varrido a Europa medieval. Em vez do banho, a higiene corporal praticada nas cortes consistia em trocar de roupa com frequência, pois o linho branco era considerado capaz de absorver as impurezas do corpo sem os perigos da água. Quem trocava de camisa todos os dias, como Henrique IV fazia, era considerado asseado pelos padrões da época.
Isso não significa que o problema do odor fosse ignorado. Os que podiam pagar recorriam a perfumes caros e a fumigações aromáticas para mascarar o cheiro que inevitavelmente emanava de corpos não lavados. A diferença de Henrique IV em relação a outros soberanos da corte francesa não era a ausência do banho, que era geral, mas a ausência de qualquer esforço para disfarçar o resultado. Enquanto outros nobres se cobriam de perfume, ele se recusava até esse artifício, preferindo os odores que a caçada, o alho e a transpiração produziam naturalmente.
O que suas amantes diziam sobre o odor do rei?
Gabrielle d’Estrées, considerada o grande amor de Henrique IV entre as dezenas de amantes que o rei acumulou ao longo da vida, foi uma das vozes mais diretas sobre o assunto. Os relatos atribuídos a ela descrevem o odor do rei como algo entre carniça e bode, um cheiro que, segundo as fontes, era perceptível antes mesmo de ele entrar em uma sala. Apesar disso, Gabrielle d’Estrées manteve a relação por anos, teve filhos com o rei e chegou a ser considerada sua possível futura esposa antes de morrer em 1599. O detalhe revelador é que o próprio Henrique IV estava ciente do que provocava em seu entorno: há relatos de cartas em que ele pede às amantes que não se lavem antes de encontrá-lo, pois apreciava o odor natural feminino da mesma forma que as amantes suportavam o dele. O rei não apenas não se envergonhava: celebrava essa natureza olfativa como parte de sua identidade béarnesa.

Como a corte francesa lidava com o odor do próprio rei?
A corte francesa do final do século XVI era um ambiente onde o protocolo determinava tudo, exceto aparentemente como reagir ao odor do soberano. Os cortesãos desenvolveram uma habilidade coletiva de silêncio diplomático sobre o assunto, enquanto perfumavam o próprio ambiente com incensos e flores. O contraste com o estilo da corte francesa era notável: enquanto os nobres adotavam perfumes importados da Itália e dos países orientais, Henrique IV chegava às audiências cheirando a cavalo e a alho, direto da caçada. Cronistas da época registram que o rei entrava nos salões sem fazer concessão ao ritual de arrumar a aparência que se esperava de um monarca.
Essa rusticidade deliberada tinha, porém, um efeito político inesperado. O povo comum, que conhecia o cheiro do trabalho e do campo melhor do que o das essências importadas, identificava-se com um rei que não se cobria de artifícios. A higiene corporal era um marcador de classe: os perfumes eram caros e o banho, quando existia, era privilegio dos muito ricos. Um rei que cheirava como um homem do povo era, paradoxalmente, um rei que parecia próximo do povo. Essa percepção contribuiu para a legenda do “Bom Rei Henrique”, o soberano que entendia seus súditos porque havia crescido entre eles.
O que o caso de Henrique IV revela sobre a higiene da realeza europeia?
A história da higiene corporal entre os soberanos europeus é repleta de ironias. Henrique IV ficou famoso pelo odor, mas seu sucessor Luís XIV, o Rei Sol, que governou a França por mais de seis décadas no século seguinte, teria tomado apenas dois ou três banhos completos em toda a vida. A diferença é que Luís XIV compensava com quantidades impressionantes de perfume e trocas frequentes de roupa, enquanto Henrique IV não se dava ao trabalho de nem isso. O mesmo padrão se repetia em toda a realeza europeia do período: os banhos eram raros, os perfumes eram os substitutos, e o odor corporal era um dado da vida cotidiana que variava em intensidade conforme a disposição pessoal de cada monarca em administrá-lo.
O que diferenciava Henrique IV não era a sujeira em si, mas a atitude. Onde outros reis da corte francesa consideravam o disfarce do odor uma obrigação de etiqueta, ele via uma capitulação às convenções artificiais da aristocracia. O Béarn havia formado nele um homem que preferia ser reconhecido pelo que era a ser maquiado pelo que deveria parecer. Essa recusa em se conformar, que se aplicava tanto à política religiosa quanto à higiene corporal, é parte do que tornou Henrique IV uma das figuras mais singulares da história francesa, admirado por uns, suportado por outros e lembrado, entre outras coisas, pelo cheiro que deixava no ar quando saía de uma sala.
Um rei que o tempo não conseguiu embalsamar no convencional
Henrique IV foi assassinado em 1610, em Paris, por um fanático religioso. Mas a memória que sobreviveu não é a de um rei de corte, de protocolos e perucas perfumadas. É a de um homem de campo que chegou ao trono sem abandonar o cheiro de quem havia crescido caçando nas montanhas do Béarn e comendo alho desde o dia do nascimento. Suas amantes reclamavam, a corte francesa tolerava e Gabrielle d’Estrées amava apesar disso ou talvez por isso.
Quatro séculos depois, a história do rei que cheirava a bode continua sendo contada porque diz algo real sobre ele: que a higiene corporal é filha do tempo e da cultura, que o que parece óbvio hoje era inexistente ontem, e que um homem pode governar uma nação, encerrar guerras religiosas e ser amado por seu povo sem jamais ter sentido necessidade de se lavar para parecer digno de qualquer uma dessas coisas.
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